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Babilônia é a cara do Brasil: corrupção, radicalismo e kit hétero

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O povo hétero, unido, jamais será vencido!’

O lema fictício poderia fazer parte do discurso de Aderbal Pimenta, o prefeito evangélico, homofóbico e corrupto de Babilônia.

Uma de suas metas é atrair eleitores conservadores para se eleger governador do Rio e, depois, presidente da República. Para isso, se lança no combate à ‘ditadura gayzista’.

No capítulo de quarta-feira (8), o bom cristão — que nas horas vagas cobra propina de empreiteiras e tem encontros extraconjugais numa garçonnière — revelou nova estratégia para agradar o ‘povo do Altíssimo’ e garantir mais votos.

Ele quer promover o kit hétero e a cura gay na cidade de Jatobá. Conta com o apoio de sua mãe, a emergente tresloucada Consuelo (Artele Salles), aquela que costuma chamar a advogada Teresa (Fernanda Montenegro) de ‘sapa safada’ e outro dia desejou fazer ‘churrasco de lésbicas’.

Esse núcleo, que já foi o mais enfadonho da novela, agora é uma das melhores partes do folhetim. Seus personagens promovem alguns dos temas relevantes do atual momento do Brasil.

Não apenas o radicalismo religioso, presente até nos plenários da Câmara e do Senado, como a corrupção endêmica envolvendo obras públicas, as peripécias do marketing político na manipulação de biografias duvidosas e as tentativas de ingerência na mídia.

O público do folhetim acaba de descobrir que Aderbal tem até relações íntimas com a milícia que promove chacinas na favela do município administrado por ele. O personagem vivido com entusiasmo por Marcos Palmeira incorpora quase todos os desvios indesejáveis a um político.

Esses assuntos, ainda que espinhosos, recebem tratamento interessante dos autores de Babilônia. Há espaço para o humor nonsense acompanhado de crítica inteligente.

Neste ponto, e apenas nele, Babilônia lembra outra novela escrita por Gilberto Braga: a insuperável Vale Tudo, de 1988.

Nas duas produções, males da sociedade foram retratados de maneira engenhosa em um momento importante do país (lá, o tal jeitinho brasileiro na então recente redemocratização; agora, a profunda deterioração da classe política e a intolerância generalizada).

Como telespectador, é mais recreativo acompanhar a trama coadjuvante de Aderbal Pimenta e sua ‘família perfeita’ — mãe moralista, esposa subserviente, filha rebelde — do que os cansativos enredos de amor e vingança das protagonistas.

O prefeito antiético e demagogo tornou-se a cara do Brasil de 2015.